Numa quarta-feira, dia 7 de fevereiro veio ao mundo uma menina bochechuda de lindos olhos azuis, vivos e brilhantes. O ano era 1979 e bandas que mais tarde - seriam as minhas bandas prediletas - lançavam discos icônicos. Foi nesse ano também que a Sony vendeu o seu primeiro walkman. Quinze anos mais tarde eu teria o MEU primeiro walkman, que por muitas noites seria meu amigo e confidente - era maravilhoso ter a companhia das minhas músicas de rock enquanto ficava quietinha no meu mundinho tão barulhento. Juntamente com essa linda menina também nasceriam Norah Jones, Pink e Negra Li. "Bye Bye Brasil" de Cacá Diegues estrearia neste ano e entraria pra lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Pesquisando sobre esse dia descobri que em 30 de janeiro um Boeing sumiu no ar transportando 153 pinturas no valor de 1,24 milhões de dólares. O avião nunca foi encontrado (no mínimo curioso).
Aquela menina cheia de sonhos. Fruto de um amor doentio e passional, era alegre, viva, sonhadora e de uma opinião fortíssima. A mãe dizia que ela seria uma excelente advogada por sempre ter um argumento na ponta da língua. Aos 7 já dizia para sua avó materna "Quando crescer vou ter um filho, mas não vou casar nunca". A avó, uma senhora católica fervorosa, recriminava, dizendo: "Como você vai ter filho se não vai casar?" E ela, na sua mais pura inocência retrucava. "Uê vó é só eu adotar". Já chegou a apanhar várias vezes dessa mesma avó. Não porque ela era uma pessoa ruim, ao contrario disso, mas porque foi assim que ela havia aprendido. Educação se aprende com mangueira. O avó não, o avô ralhava e ficava por isso mesmo. Todos diziam que minha avó mandava nele. Agora entendo que não. Ele não era "mandado" por ela. Ele só agia de forma a respeitar as suas vontades.
Naquela casa simples, de 4 cômodos, telha de amianto, onde minha avó cismava em pintar as paredes todos os anos para a espera do Natal, eu me fiz gente. Carinho nunca se viu, abraços só em dia de alguma comemoração da igreja ou no aniversário da gente. A forma de dizer "Eu te amo" naquela casa era outra. Eu sentia o "eu te amo" do meu avô quando ele, velhinho já, ia pro fogão fazer vários tipos de doce de cortar usando um tacho enorme de latão todo enferrujado. Ele sempre me ensinava o ponto pra que não ficasse nem mole ou nem duro demais. Nós, crianças (eu, minha irmã e meus quatro primos que foram morar com a gente depois que o pai morreu de acidente num caminhão de boias-frias), ficávamos ali aguardando ansiosamente vô derramar aquela iguaria na mesa para que pudéssemos roubar um pedacinho que fosse. Ele ralhava de novo. "Doce quente da dor de barriga, menina." (Sentiu o amor ressoar aí?). Já minha avó era a brava, uma mulher gigante com menos de 1 metro e meio de altura. Como poderia caber tanta força numa mulher tão pequena e frágil fisicamente? Pois cabia! Me recordo dela brigando com meu genitor, que alguns anos depois seria o responsável pela morte dessa garotinha. Ele não dizia uma palavra. Ela foi uma feminista, mesmo sem saber do que isso se tratava. Quando me lembro desse dia que orgulho eu sinto dessa mulher!!! Acabo de me lembrar da vó pedindo dinheiro trocado pro vô pra colocar na caixinha da sacristia da igreja. Ele sempre resmungava: "Pra quê dinheiro pra igreja?". E, enquanto reclamava, tirava do bolso um bolo de notas embrulhados num saquinho de leite, amarrado por um elástico muito velho e lá ia minha avó pra missa de domingo.
E assim o amor se fazia naquele barracão na favela da zona leste de Beagá. O amor, a honestidade, a fé e principalmente, a diferença entre ter e ser eram regras naquela casa. Nunca tínhamos muito, mas éramos nós. Uma família da roça, com os valores da roça e que todos os domingos se reunia para o almoço. O prato era sempre o mesmo: arroz, tutu de feijão, macarronada com ovos e aquele franguinho frito na gordura de porco. Ali era possível sentir o amor.
E assim o amor se fazia naquele barracão na favela da zona leste de Beagá. O amor, a honestidade, a fé e principalmente, a diferença entre ter e ser eram regras naquela casa. Nunca tínhamos muito, mas éramos nós. Uma família da roça, com os valores da roça e que todos os domingos se reunia para o almoço. O prato era sempre o mesmo: arroz, tutu de feijão, macarronada com ovos e aquele franguinho frito na gordura de porco. Ali era possível sentir o amor.
Daquela menina, doce, alegre, apaixonada, justa e além do seu tempo. Que adorava cantar, mesmo sabendo ser desafinada, que inventava brincadeiras, que destruída todos os brinquedos pra saber como eles funcionavam e que, certamente acabariam no lixo por nunca conseguir montá-los novamente, sobrou quase nada. E, mesmo ela nunca tendo sonhado em ser atriz, precisou ser para sobreviver.
Naquela nova casa, ela aprendeu que se a gente se entrega ao amor e somos vulneráveis, as pessoas nos machucam. Ou pior ainda, nos abandonam. Aprendeu também que nem todos os filmes são feitos para crianças assistirem. Curiosa que era, questionava. "Mas por quê não?" E argumentava. "Era hora do almoço". No filme em questão havia uma menina de uns 7 aninhos. Ali ela também aprendeu que os monstros aparecem quando você dorme. E foi ali, que ela começou ter medo deles debaixo da cama.
Naquela casa ela começou a perceber que nem todos os casamentos eram como o dos avós dela. O daquela casa era cheio de brigas, gritos, choro e muito sofrimento. Também não havia demonstrações de afeto naquela casa. O cheiro de doce de leite do meu avô saindo do tacho deu lugar ao perfume da loção pós barba barata do seu genitor.
Nem o almoço era o mesmo. Lá quando a comida tinha ficado um pouco fora - do gosto de freguês - esse tinha o hábito de jogar o prato na parede, sujando toda a cozinha. Mas ela não aprendeu que comida era algo sagrado e que tínhamos que agradecer por tê-la na mesa? Se questionava.
Começou a trabalhar aos dez. Se lembrava de quando o avô dizia, "Pessoa honesta começa trabalhar cedo". O estranho era que ela não se lembrava do avô dizer que o reconhecimento pela sua dedicação ao trabalho viria em forma de carinhos que ainda eram desconhecidos para aquela menina.
Quando adolescente ela já sabia muito mais sobre sexo do que toda a sua turma da escola. A curiosidade nunca saiu dela. Aprendeu nas revistas e filmes que seu genitor não fazia muita questão de esconder.
E foi assim que ela (sobre)viveu. Atuando, sendo alguém que precisava ser para se proteger da violência, das brigas, do assédio e de toda dor que essa nova casa lhe causava.
E nesse cenário ela se fez mulher. A questão é que quando se atua por muito tempo você já não sabe mais quem és. A personagem ou a atriz na vida real?! Tudo se torna um novelo de lã que se perdeu o fio da meada. E nessa confusão mental você acaba magoando pessoas, fazendo escolhas erradas e se machucando ainda mais.
Hoje aos 42 anos completos começo um novo ciclo, uma nova busca incessante ao encontro dessa garotinha de olhos azuis, vivos e brilhantes que sonhava em ser cantora, arquiteta, aeromoça e que teve o privilégio de morar naquele barracão de quatro cômodos numa favela da zona leste de Beagá.
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