Por favor, me deixe descansar? Deixe que eu retire dos meus ombros essa mala-sem-alça? Ela está um tanto quanto pesada e meus ombros doem. Será que é pedir muito? Pode ser só por hoje! Só por hoje, me deixe aqui, quietinha. Desmarque meus compromissos. Cancele o dentista. Me dispense dos afazeres domésticos. Leve meu filho a um parque de diversões. Só por hoje, vai? Só por hoje, encontre um novo amor para minha namorada. Me tire a obrigação de ter que ir ao trabalho. Me faça esquecer os estudos. Só por hoje, não quero nada! Nem celular, nem internet, nem livros e muito menos televisão! Quero o sossego. Quero o breu. Quero um maço de Malboro. Sim! Tudo bem. Eu realmente não fumo. Mas hoje, necessito de alguns tragos. Quero ver a cor da brasa queimando e poluindo meus pulmões. Quem sabe assim, meus pensamentos não se esvaem juntamente com a sua fumaça? Também quero algumas doses de conhaque - Domecq, por favor - Me ajuda a relaxar. Não! Não quero música. Quero ouvir o som do meu próprio silêncio. Careço disso. Quero me embriagar de mim mesma. Até enjoar! Posso pedir uma tempestade? Amo noites tempestuosas. Os raios riscando os céus. Aqueles clarões inesperados. O som ensurdecedor dos trovões. Ah! Aquele som me entra nos ouvidos como sinfonia. É tão belo e, ao mesmo tempo, tão aterrorizador. Agora um último pedido. Me deixe morrer? Só por hoje. Não que não queira viver. Quero e necessito! Mas é que eu vejo a morte como um troféu, uma congratulação por ter vencido a guerra. E é isso que quero. Ser congratulada por mais uma batalha ganha. Quero honra ao mérito. Quero todos me olhando, quietinha em meu caixão. Por favor? Me deixe ficar quietinha, ali? Para que, talvez ao amanhecer, eu possa ressurgir das cinzas - como uma fênix - e possa ser alguém mais forte e guerreira para encarar mais uma grande batalha. Obrigada!!!
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