quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sinfonia



Mãos de pianista.
Encontraram no corpo dela as suas teclas.

Apanharam-na.

Afinaram as suas notas.

Tiveram a paciência de um imortal.

A certeza de um proprietário.

O tempo de todo o mundo.

Tencionaram cordas – e ela converteu-se num brinquedo espontâneo.

Tangendo sempre...

Flamenco nos seios.

Jazz no ventre.

Entre as pernas, um choradinho de arrancar lágrimas.
O bojo dos seus quadris apoiado sobre a coxa firme da pianista.

A mão esquerda conduzindo o seu braço numa valsa descabida.

A destra hábil gravou na sua medula a letra daquela canção.

Fez ecoar a voz da amada no recinto outrora vazio da alma da amante.

Ela contorceu-se, inclinou-se, gata em momento de preguiça, quatro patas, traseiro alto em alegre submissão.

A boca dela cantarolou no seu sexo.

Lábios com lábios.

E todas as janelas do seu corpo se abriram, se escancararam, berrando um convite.

Latejando.

Humedecendo.

Ela escolheu uma entrada.

A doce porta proibida.

Tocou de leve os glúteos fortes.

Cor de trigo.

Páginas sofisticadas.

Abriu-as.

O miolo de tal livro era algo para conhecer.

Ela regia uma sinfonia suave, morosa.

Primeiro os violinos.

Meigos, furtando suspiros precoces.

E a porta antes trancada foi cedendo devagar.

Então, os oboés. Os violoncelos. Os clarinetes. A divina cacofonia.

A amante avançou.

Tateou.

Dedos cegos mas espertos logo acharam o seu posto na orquestra.

Aninharam-se na alcova alagada de um órgão em flor.

Dedilharam...

Um, dois, três. Um, dois, três.

Encontraram o ritmo.

Sem pressa, ela a embalou.

Indo e vindo.

Afundando sempre.

Ela como um maestro conduziu.

A diva cantou. Prazer agudo. Palpitante.

Infringir a regra e jamais contar a ninguém.

Despejar o conteúdo de todas as gavetas.

Rasgar as páginas de todos os diários.

Falar de amor carnal e visceral em todos os altares.

Preencher com gozo divino todos os buracos mundanos.

Meter o pecado virtude adentro.

Entrar e sair do paraíso roçando o inferno. Roçando o fogo.

A voz dela rivalizou com as de todos os castrati.

Ah! Foi uma longa sinfonia.


Créditos:
http://tempusblogandi.blogspot.com/

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